A Serpente da afetividade
No filme GENTE DI ROMA do diretor
italiano Ettore Scola, há uma cena muito forte. Duas lésbicas estao
papeando numa mesa fazendo carinho uma na outra, de repente, outra
lésbica senta numa outra mesa e sutilmente comeca a encarar pelas
beiradas uma das lesbicas comprometidas. A lesbica comprometida
percebeu que estava sendo visada e sutilmente desviava o olhar
projetando na outra do outro lado. A cada olhar, a outra secava a
outra com olhares de Serpente da afetividade e a comprometida foi
ficando cada vez mais hipnotizada pelo poder de seducao silenciosa
que emanava do olhar sexy e possessa de desejo da outra. Aquele olhar
arrebatador foi desestabilizando o papo do casal lésbico ao ponto de
uma das parceiras se dar conta de que estava falando sozinha porque
havia algo estranho no ar. Do nada ela bateu o olho e flagrou a Cobra
Sedutora do outro lado da mesa. O semblante mudou e ela ficou
ENDEMONIADA POR UMA LEGIAO DE CIUMES enquanto a outra sorria com cara
de deboche. Mesmo enciumada e corroída por dentro, ela nao emitiu
uma palavra. Apenas abaixou a cabeca com olhar de tristeza e
impotencia enquanto via a parceira amada com pescoco virado, rendida,
prostrada, toda de quatro para a sensualidade corporal do outro lado
da mesa.
A química e o desejo aterrizam pontualmente na Hora
incerta.
Sobre o desejo, vale a pena refletirmos sobre a descricao
da escritora Martha Medeiros em seu livro Montanha Russa :
„O desejo é um leão. Selvagem, carnívoro, brutal. Não permite acomodação: nos faz farejar, caçar, brigar pelo nosso sustento emocional. O desejo nos transpassa, nos rouba o sono, confunde o pensamento lógico. O desejo corrompe nosso bom comportamento, faz pouco caso da nossa índole intocável. O desejo não tem pátria nem família, o desejo não tem hora nem tem verbo, o desejo ruge, nosso corpo é sua jaula.“
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